quinta-feira, 5 de março de 2009


O Menino
(para Maiam)

O menino do coração de ouro apareceu. Emudeci, com o dedo em riste, e perdi a contagem de estrelas, exatamente na terceira constelação. O vento veio junto, soprando música nas varetas de bambu. A roseira estremeceu e o limoeiro do meu pai deixou cair duas folhas, ainda verdes. Meu coração deu voltas no estômago e a boca prendeu a surpresa com gosto de hóstia mordida.

Era a vontade e a impossibilidade. O pecado e o susto. As visíveis diferenças e as semelhanças gritantes. Conflito e paz. Luz e sombra, sombra e luz. Sim e não. Não. Sim.

O novo mantra, que intuí no século passado, invadiu meus sentidos como um hino, um balançar de folhas de tamareiras bíblicas, lamentos de Muro, sumo dos figos de Jerusalém escorrendo pelos cantos da alma. Não entendi um som. Não quis entender (preferi sentir).

Desci correndo as escadas até meu quarto, baixando os olhos na tentativa de passar despercebida pela página amarelada do Alcorão entre os verdes, vermelhos, marrons, maçãs, pêras e papel rendado na colagem em acrílico da tela na parede da sala. Tranquei a porta com duas voltas da chave, acendi a luz do abajur que ilumina minhas noites e a imagem de Miguel Arcanjo que as protege. Descalcei as sandálias e me joguei na cama, escondendo os olhos com as mãos para não ouvir mais nada.
Márcia Leite

sábado, 14 de fevereiro de 2009


Ele saiu da minha vida numa noite de chuva
dormi a madrugada química sem sonhos
na manhã seguinte chovi com a natureza
chovo ainda na tarde
choverei quanto ainda?
choverá ele?
Márcia Leite

há um funeral dentro de mim
e um eco de surdo que anuncia enterro
minhas mãos flutuam sem gravidade
o dia é uma nuvem pesada
o futuro morreu hoje
nada existe além.


Márcia Leite

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Lilith

sou aquela que carrega a chama
que controla o fogo que recende à mirra
sendo a outra que nega a água que refresca a alma

sou a que vem por minutos
talvez segundos (dependendo da meta)
e parte (sem remorsos)

sou o mental alerta que conduz o corpo
por curvas e retas alimento os fracos
que (como eu) não têm destino
se arriscam às bordas da vida
malabaristas da morte - fios lâminas subterrâneos
verto lágrimas das palavras
finjo a dor mordo as mágoas
e sigo [só].

Márcia Leite