quarta-feira, 23 de maio de 2012

Tempos soturnos



nada me inspira
tudo me comove
"Você tem sede de quê?"
me  perguntam os Titãs
o fantasma da ópera
ainda me assombra
sou refém de tempos soturnos
não existe trégua no meu mundo


Márcia Leite

domingo, 20 de maio de 2012

Sunday morning



e  porque era domingo
e o sol brilhava
na manhã que acordara
a noite do desencanto
as ruas já não pareciam
tristes como antes
nem as pessoas
desinteressantes
como  ontem

o café preto 
na calçada da padaria
que tinha jeito de província
nos pães quentinhos
e petit fours amanteigados
sob  ombrellones  brancos
cheirava  a quase anjo
despertando a vontade
de subterrâneos aveludados
e parcerias instigantes
que  durassem mais que vésperas

Márcia Leite
Sunday morning (também ) é título de música do Velvet Underground.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A morte do poema



a escuridão

vence as estrelas

escondendo  os personagens

da janela mágica

 

o corpo do poeta é

pés descalços sobre cerâmica fria

seu olhar anseia vento vivo

que desfaça o céu de nuvens

 

a poesia aceita o diadema

que a mansidão lhe oferece

o adorno de vidro

aprisiona  a rebeldia nos cabelos

 

os vizinhos dormem seus dias

telhados permanecem além e áridos

só o cálice vazio sobre a mesa

acompanha  a morte do poema

 

a extensão daquela inação

ultrapassa o cume dos montes

aves noturnas gritam em suas asas

o mistério na noite é rito de passagem


Márcia Leite
Imagem: The face of genius, R Magritte

sábado, 12 de maio de 2012

O voo como saida





Liberdade que voa
diz meu tio
ninguém prende
é cavalo sem arreios
verde sem devastação
alça voo inesperado
fugindo dos carcarás
                     (e do fantasma de Lampião)


liberdade alada
igual música de Gonzaga
vê no brilho do arado
o reflexo da predação
e voa sobre a caatinga
rumo ao dourado
 (não tem medo de fogo                                            
  é filha do sertão)


Márcia Leite