sábado, 14 de fevereiro de 2009


Ele saiu da minha vida numa noite de chuva
dormi a madrugada química sem sonhos
na manhã seguinte chovi com a natureza
chovo ainda na tarde
choverei quanto ainda?
choverá ele?
Márcia Leite

há um funeral dentro de mim
e um eco de surdo que anuncia enterro
minhas mãos flutuam sem gravidade
o dia é uma nuvem pesada
o futuro morreu hoje
nada existe além.


Márcia Leite

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Lilith

sou aquela que carrega a chama
que controla o fogo que recende à mirra
sendo a outra que nega a água que refresca a alma

sou a que vem por minutos
talvez segundos (dependendo da meta)
e parte (sem remorsos)

sou o mental alerta que conduz o corpo
por curvas e retas alimento os fracos
que (como eu) não têm destino
se arriscam às bordas da vida
malabaristas da morte - fios lâminas subterrâneos
verto lágrimas das palavras
finjo a dor mordo as mágoas
e sigo [só].

Márcia Leite

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009


Feminino
(ato I)


A moça canta Garganta. O papagaio, grita “tudo bem?”.
Ela, sentada no terraço, cara lavada de sábado à tarde, pernas apoiadas no vaso do manacá,
se espreguiça, enquanto a tartaruga a observa com seu olhar réptil-de-paraíso-perdido.
Vasculha na memória as disponibilidades que sempre lá estiveram, fiéis, de quatro.
Argui o passado para lembrar da maior paixão.
“Vingança pouca é bobagem”, bem disse alguém que conhece mulher...
O céu está tão azul, o entardecer tão grandioso (sussurra o diabinho liberado).
A brisa esquenta as pernas que sorriem aprovadoras e femininas.
O telefone ali, como quem não quer nada, se exibe, sonso, incentivando o gesto.
Ela levanta, caminha (sem dó nem remorso) e a mão, lânguida, insinuante, disca, lentamente, dois dois sete e mais alguns.
A voz do outro lado nem parece surpresa.
Ela também não...

Márcia Leite