sábado, 21 de novembro de 2009

Piedosa Divina

entre a parreira
e o manacá
de mãe lavadeira
e pai lavrador
nasceu Divina
cresceu magra
comprida
desengonçada
as saias herdadas
das filhas das outras
mostravam joelhos pontudos
- e pernas arqueadas
da janela da casa
ela via
as outras meninas
vestidas de chita
coxas roliças
tranças douradas
perfume de rosa
Divina que cheirava
à roupa lavada
se olhava no espelho
e só via joelhos
surgindo o vermelho
descobriu-se pomba dourada
por dentro das calças
soltou os cabelos
suspirou
aos treze doou a inocência
e o recém-arredondado das coxas
ao padeiro da esquina
depois veio o carteiro
o açougueiro
o bairro inteiro
dava a torto e a direito
mas por algum mistério da vida
nunca engravidou
poucos anos mais tarde
ainda na flor da idade
do dia pra noite
deixou os moços na esquina
e tornou-se beata
(por outro mistério que jamais revelou)
contrita Divina
agora é Piedosa Divina do Claustro Descalça
só doa graças em louvor
de Nosso Senhor
sua fama correu mundo
e todas as putas do vilarejo
oram à Piedosa Divina da Pomba Dourada
do Claustro Descalça
a nova Madalena da beira do Tejo.


Márcia L, in Versos Descarados, 2007
Imagem: Maria Madalena, pintura de Ticiano

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Atos de Sobrevivência


estou além de mim
e estar além de si
significa enxergar melhor as coisas da vida


estando além de si
você percebe que o barro
escorre - sempre - para os lados [da matriz]
(mas você escolheu o barro...)

percebe também que, na verdade
certos sentimentos e pessoas não existem
são apenas você em você
por você.

Márcia Leite
imagem: Degas, Absinto

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Fantasmas na chuva



o passado é bom conselheiro em dias mornos

não nos chuvosos e frios de presença

as ausências são sempre mais sentidas

perto da primavera

quando as flores ainda não desabrocharam

sendo apenas embriões de esperança

simples possibilidades de beleza


nem sempre é possível aguardar o florir

anseia-se por cores e cheiros que ainda não são

quando a chuva se mistura aos fantasmas

até a existência da flor torna-se incerta

e a gente se decide auto-suficiente

para não sofrer.


Márcia Leite
óleo sobre tela por Pedro Ignácio



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Lucy, a rosa da vizinhança


Escrevia quatro cartas por mês. Desenhava seus próprios vestidos e costurava-os na máquina da mãe morta. Saia às ruas balançando os cabelos louros presos em um ‘rabo de cavalo’, como os usava desde criança. As cartas eram guardadas numa gaveta da cômoda, logo abaixo da das calcinhas (que era perfumada com galhos secos de alfazema). Sexta-feira era dia de ir ao Museu. Olhava e olhava o acervo, cada detalhe de cada quadro já decorara, mas sempre conseguia descobrir algum outro e anotava a nova percepção numa caderneta de capa dura (já a quarta ou a quinta delas). Sempre sozinha, caminhava pela Cinelândia, sentava no Amarelinho e pedia, invariavelmente, um cappucino e uma água.

Voltava para casa no início da noite, quando a luz ainda só acinzentava. Gostava de contar para as vizinhas as novidades das sextas-feiras e dizia, agitando as pequenas mãos ‘Vocês precisavam ver, precisavam, mesmo, ver! O homem sentou a meu lado no Amarelinho e não mais tirou os olhos de mim. Fingi que não percebi, e até que era um bonitão de não se jogar fora, mas imagina se trairia meu Diguinho! Eu não!’, as vizinhas se entreolhavam e apenas sorriam ouvindo-a falar. Entrava na casa, cobria a gaiola do papagaio, não sem antes desejar-lhe uma boa noite ao que ele correspondia com sua voz de criança.

Preparava-se para a noite tomando um demorado banho na banheira retangular de azulejos azuis e cantava Beatles enquanto mergulhava o corpo naquela água morna, cheirando a sais de banho da Avon. Enrolava-se no roupão atoalhado de fundo rosa claro com estampa de pequenos buquês de violetas, dirigia-se à cozinha para esquentar a água para o chá noturno, de camomila, o mesmo com que enxaguava os cabelos claros uma vez por semana. Ligava a televisão para ouvir o noticiário antes da novela. Com o chá na mão e um prato de bolachas, sentava-se no sofá marrom, de couro sintético, enrolava os pés sobre o corpo, assistia o capítulo em silêncio. Desligava a televisão logo após o final do capitulo, fechava as cortinas e deitava na cama cheirosa (suas roupas de cama eram sempre enxaguadas com essência de alecrim na última aguada).

Era uma moça bonita, delicada, sensível e detalhista. Aparentava uns 30 e poucos anos, mas as vizinhas sabiam que já passara dos 40. Às vezes, enquanto o chá não fazia efeito, abria a gaveta da cômoda, pegava uma das cartas e a lia em voz alta. Eram cartas de amor e saudade, repetitivas. Todas endereçadas a 'Meu amado Diguinho' e terminando com ‘da sempre sua Lucy’.
As vizinhas, no início, até que tentaram entrar em contato com o ex-noivo da moça, mas o único endereço que sabiam era do antigo hospital e lá desconheciam o paradeiro do doutor Rodrigo. Uma chefe de andar lembrava bem do ‘doutor Rodrigo Munhoz’ e sabia do caso da noiva que enlouquecera, mas não tivera mais contato com ele. Parece que ele pedira demissão do hospital para fazer um mestrado fora do país; na França, ouvira falar.

Lucy era filha única de filha única e professora de Artes numa escola municipal. O noivo, obstetra, abandonou-a na véspera do casamento para casar pouco depois com uma das enfermeiras do hospital. Ela sofreu seu primeiro surto, violento, quebrando tudo do quarto aos gritos, que eram ouvidos por toda rua. A partir dai intercalava esses surtos com períodos de total apatia quando não comia nem falava. Foi internada pela mãe numa casa de saúde onde ficou oito meses e, considerada inapta para o serviço público, foi aposentada por insanidade mental aos 28 anos. A mãe, já muito doente, faleceu logo em seguida à alta de Lucy, o que provocou um novo surto, dessa vez totalmente silencioso e que durou duas semanas. As vizinhas cuidaram dela e aos poucos ela voltou a conversar e se alimentar. Notaram que agia como se Diguinho e ela ainda estivessem por se casar e ele estivesse viajando para mais um dos congressos de medicina que costumava ir.

Há quinze anos não surtava, mas se alguma delas tentava lembrar que Diguinho não voltaria, até já se casara com outra!, ela tapava os ouvidos e começava a repetir frases curtas, desconexas. As vizinhas desistiram com o tempo e, alimentando sua mansa loucura, a presenteavam todo mês com uma nova peça para o enxoval guardado num baú laqueado de vermelho. Lucy era a rosa da vizinhança e por isso regavam-na todos os dias com carinho em forma de pratinhos de comida e lanchinhos quentes.

Márcia Leite