quinta-feira, 7 de junho de 2012

além da contemplação




é inútil o esbravejar
contra um todo que há
e que não conseguimos viver
não por falta de desejo
por ausência de consenso

sem aproximação permitida
este todo que blasé se exibe à janela
arredio escapa às mãos sedentas
na incompletude disseca-nos as veias
e a poesia se recolhe
                                     

                                    dorme, exaurida, na palavra que morre

Márcia Leite, para O voo como saída
Imagem: Henri Matisse, The blue window

terça-feira, 5 de junho de 2012

modus perversus





não é sempre que vivo em bondades
ainda não recebi as asas prometidas
nem comecei o caminho das santinhas
até  meu pai, homem digno de doer
teve lá seus pecados de intolerância
às vezes penso maldadezinhas
e não me penitencio por isso


Márcia Leite, para O voo como saída

segunda-feira, 4 de junho de 2012

ingratidão


'Mulheres existem para serem amadas,não para serem entendidas.'
Vinicius de Moraes


há uma dor que me corta ao meio
de que matéria é feita essa vida de cores?
minha rosas cheiram a pêssego
o limoeiro vive cheinho de botões brancos
por que então o vazio entre as costelas?
sinto falta de coisas que não vivi
de pessoas que não conheço
de casas que jamais habitei
não sei quem sou nem o que faço aqui
e não posso sequer confiar em mim
como abrigo seguro para tempestades

Márcia Leite, para  O voo como saída

sábado, 2 de junho de 2012

o guerreiro e eu


  

 
Sou protegida de Jorge, o Guerreiro, uma das zeladoras de suas armas. Obedeço o olhar firme do santo e não ouso contrariar seus desígnios, por mais injustos que me pareçam. Porque, do alto de seu branco cavalo, brandindo a lança brilhante e amor sob a armadura de prata, a cada final de batalha, em suas horas de descanso, é a mim que ele abraça.

Márcia Leite